DESAFIOS E TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃO
INTRODUÇÃO
Estudos realizados têm demonstrado a
necessidade de ser desenvolvida uma prática pedagógica que não privilegie
apenas a aquisição de conteúdos curriculares, como tem acontecido na maioria
das instituições de ensino. No dizer de Galeffi (2001, p. 23) “precisa
potencializar a educação humana do sujeito social autônomo e inventivo”.
Ao abordar este tema nos remete a
algumas reflexões sobre o Educação à Distância, que carece de uma mudança de
mentalidade do modelo até então vigente no Brasil de um ensino tradicional e no
dizer de Paulo Freire uma educação bancária, uma pedagogia da transmissão onde
“o professor ainda é um ser superior que ensina a ignorantes. Isto forma uma consciência
bancária, sedentária, passiva.” Pierre Lévy também nos diz que : “ a escola é
uma instituição que há cinco mil anos se baseia no falar ditar do mestre”.
A Educação a Distância tem sido apontada
como solução para as carências educacionais, ensejando tais perspectivas,
projetos de educação a distância são inseridas em políticas educacionais, que
deve atentar para o contexto cultural em que esteja inserido e as condições
reais que se desenvolve, com o objetivo de proporcionar ao educando uma autonomia
do ato de aprender.
Ao identificar qual a função da
educação, poderemos, assim, perceber o seu real papel, pois cabe a educação
propiciar ao educando, independente de modalidade de educação a distância ou
presencial:
1.aquisição
de consciência crítica, criativa, participativa, questionadora.
2.formação
sólida que assegure:
1.
dominar conteúdos;
2.
compreender os princípios básicos que
fundamentam o ensino numa visão globalizada da cultura;
3.
apresentar referências teóricas para
análise, interpretação da realidade.
3.ação
educativa capaz de vincular teoria e prática, voltada para a percepção das
relações entre os contextos sócio-econômico-político e cultural.
Dessa forma, a relação entre o educador e o educando deveria ser de trocas e
interações tendo como metas o crescimento em conjunto; porém, de aprendizados
individualizados. Utilizando os argumentos de Dante Galeffi precisa-se anunciar
na aprendizagem autônoma uma tensão educativa que se funda na ação aprendente e
com essa ação, ser desenvolvida uma atitude aprendente radical. O Professor
nesta relação desempenha um papel fundamental pois contrariando o Comenio no
dizer de Pacheco (1996) não é possível ensinar tudo a todos. A questão-chave
não reside em saber se a aprendizagem deve conceder prioridade aos conteúdos,
mas sim em assegurar que seja significativa.
Abordar-se-á o desafio da Educação a
Distância no entendimento do aluno como sujeito de sua própria aprendizagem,
desafio esse emergente de ensinar e aprender novos paradigmas do ensino ser
centrado no professor para desenvolver-se em um ambiente de colaboração e
crescimento mútuo professor e aluno.
Sherry apud Tavares (2004) afirma que o
professor na Educação a Distância para a se ver
um orientador que apresenta modelos, faz
mediações, explica, redireciona o foco e oferece opções e como um co-aprendiz
que colabora com outros professores e profissionais. A maioria dos professores
ou instrutores que utilizam atividades de ensino mediadas pelo computador
prefere assumir o papel de moderador ou facilitador da interação em vez do
papel do especialista que despeja conhecimento no aluno.
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
O Termo Educação a Distância nos
condiciona a idéia imediata de ausência do professor e aluno em um ambiente
convencional denominado sala de aula.
Moore (1990) afirma que “Educação a
distância é uma relação de diálogo, estrutura e autonomia que requer meios
técnicos para mediatizar esta comunicação. Educação a distância é um um
subconjunto de todos os programas educacionais caracterizados por:grande
estrutura, baixo diálogo e grande distância transacional.”
A Tecnologia contribuiu sobremaneira
para o desenvolvimento da Educação a Distância, pois as barreiras até então
apontadas que dificultavam os processos de aprendizagem foram vencidos. As
características essenciais da Educação a Distância é a flexibilidade do espaço
e do tempo, abertura dos sistemas e a maior autonomia do aluno.
O que pode-se perceber é que na Educação
a Distância o sucesso do aluno depende em grande parte de motivação e de suas
condições de estudo. O desenvolvimento de pesquisas sobre metodologias de
ensino para educação à distância perpassa na maior autonomia do aluno, condição
sine qua non para o sucesso de qualquer experiência de Educação a Distância que
pretenda superar os modelos instrucionais e behaviouristas.
Essas idéias são reforçadas por Marsden
(1996) ao afirmar que as práticas dominantes em Educação a Distância baseiam-se
em uma “antologia empirista” e uma “epistemologia positivista” e que esta
compreensão de causalidade e explicação permeia a EaD pela mediação da tradição
behaviourista e da instrução programada.
Na Educação a Distância não estamos
juntos fisicamente, porém conectados. Saímos do contato físico para o contato
virtual, vencendo barreiras de espaço e tempo. Devemos pensar uma sociedade
educativa e Educar ao longo da vida.
A demanda para o aprimoramento
profissional é um fato hoje e a Educação a Distância apresenta-se neste cenário
como uma modalidade capaz de contribuir para este aprimoramento além dos
limites de uma sala de aula convencional.
Uma das estratégias fundamentais na
Educação a Distância é o aluno vencer o desafio de estudar sozinho, obtendo
autonomia do seu ato de aprender e para isso precisa desenvolver a habilidade
de ter uma aprendizagem autônoma.
AUTONOMIA DA APRENDIZAGEM
Embora seja um pressuposto teórico, que
a aprendizagem é pessoal e intransferível, as instituições, na sua grande
maioria, ignoram esses pressupostos e tiram as oportunidades dos alunos de
construírem os seus próprios conhecimentos, uma vez que a prática pedagógica
caracteriza-se por conduzi-los a uma aprendizagem mecânica, pautada em modelo
passivo, receptivo, autoritário e competitivo.
Pacheco (1996) afirma que os Currículos
precisam atentar-se para à “valorização da individualidade do sujeito e da sua
cognição, das atitudes e valores, ao respeito pelas diferenças individuais e à
procura de um desenvolvimento global e contínuo.”
Partindo sempre do pressuposto de que o
aluno não sabe nada e que deveremos impor conteúdos e obrigá-los a dominá-los.
Muitas das dificuldades de aprendizagem encontradas pelos alunos podem estar no
processo de comunicação e no processo motivacional. Não é tarefa fácil
identificar e selecionar conteúdos curriculares que protejam os interesses dos
alunos.
NOSSA apud SCHWEZ, 1999, p.56 afirma
que:
O professor tem de ter a capacidade e o
Dom de provocar atitudes sobre os conteúdos de ensino e sobre o próprio
aprendizado, por meio de uma comunicação motivadora. Deve dar condições ao
aluno para que este ao sair da influência exercida, tenha atitudes tão
favoráveis quanto possíveis baseando-se num comportamento visível e positivo.
Ao identificar a carência do educador em
proporcionar uma atitude aprendente nos educandos é que abordamos a necessidade
do educador refletir a sua prática docente e caminhar para uma mudança de
atitudes e ações.Pacheco (1996) comenta que “para o professor tornar-se um
investigador, exige-se-lhe que reúna as capacidades de um profissional amplo
(em oposição a um profissional restrito) e demonstre uma atitude investigativa”.
Em oposição a uma prática conservadora,
tradicional e tecnicista surge a aprendizagem autônoma, tema que de início
sugere três questionamentos:
· o
que é aprendizagem autônoma ?
· para
que serve?
· em
que situação é desejável ou necessária?
Respondendo à primeira pergunta
carecemos de definir o que é autonomia, que no momento presente é bastante
utilizada, significando na verbete da nossa língua “faculdade que tem o
indivíduo de governar, de se decidir.”
Transportando-se para a aprendizagem
autônoma, está implícito que, nesse processo o aluno deve ser responsável pela
sua aprendizagem, o que não está subentendido a eliminação do professor na
gestão de atividade de ensino. No Ensino a Distância essa atitude do aluno é
inevitável para desenvolver o seu espaço do aprender, pois a mesma é
essencialmente auto-estudo.
Para saber como o indivíduo aprende,
devemos saber como pensa o educador, o ser que somos é um ser em aberto e o
educador precisa desenvolver possibilidades de investigação, sair da idéia de
senso comum e permitir que o outro aja com a sua singularidade. Pacheco (1996)
comenta que o Aprender a aprender é o objetivo mais ambicioso e ao mesmo tempo
irrenunciável da educação escolar – equivale a ser capaz de realizar
aprendizagens significativas por si mesmo numa ampla gama de situações e de
circunstâncias.
Para o desenvolvimento de uma
aprendizagem autônoma, o educador deve, mesmo que seja difícil, mas se for
desejável, assumir uma posição de renúncia ao poder oferecido pelo próprio
“lugar” de professor – aquela posição que permite a alguém controlar outros, no
caso, os alunos.
A Aprendizagem Autônoma está
fundamentada nos princípios da Epistemologia Genética, teoria que explica a
construção do conhecimento nos seres humanos.
Galeffi (2002, p. 17) afirma que “Só se
aprende o que se mostra necessário no pensar-ser. Só o necessário pode ser
aprendido em seu evento”.
A Segunda questão é de ordem prática e
não constitui tarefa difícil de respondê-la, visto que são inúmeras as
vantagens da aprendizagem autônoma para o aluno e o professor.
É nesta concepção que HAIDT (1994:61)
afirma que:
quando o professor concebe o aluno como
um ser ativo, que formula idéias, desenvolve conceitos e resolve problemas de
vida prática através de sua atividade mental, construindo, assim, seu próprio
conhecimento, sua relação pedagógica muda. Não é mais uma relação unilateral,
onde um professor transmite verbalmente conteúdos já prontos a um aluno passivo
que o memorize.
A utilização dessa alternativa é
aconselhável, mesmo que alguns admitam a inexistência de ganhos pedagógicos (o
que não concebemos), pois quando você alimenta no outro a potencialidade de
crescimento ele busca sua independência e auto-afirmação e a aprendizagem
ocorrerá não de forma dicotômica, distante e distorcida, mas pelo contrário,
interligada e interdependente com todas as relações significativas mantidas com
o aluno.
Essas questões nos remete a uma reflexão
da necessidade de uma intervenção pedagógica construtivista propiciando nos
educandos condições adequadas para que os esquemas de conhecimento, construídos
pelos alunos, sejam os mais corretos e o professor não deve ficar na posição de
mero transmissor de conhecimentos, pois no EaD esse modelo é obsoleto pois sua
característica básica é a não convencionalidade em relação à sala de aula, das
dimensões espacial e temporal e da relação professor-aluno.
Poderíamos elencar várias vantagens da
aprendizagem autônoma, entretanto citaremos algumas segundo CARVALHO (1994):
· permite
ao aluno aprender melhor e buscar maior aprofundamento nos assuntos de seu
interesse, uma vez que o professor, diante das exigências curriculares
institucionais e o tempo disponível, desenvolve conteúdo considerado essencial,
não lhe permitindo condições de atender as opções dos alunos;
· contribuir
para enriquecer os conhecimentos dos alunos. Podemos perceber por exemplo,
quando o professor respeita as diversas opiniões dos alunos sobre um mesmo
assunto;
· o
aluno aprende a se libertar da dependência do professor e passam a descobrir
formas alternativas de construir o conhecimento.
O que se percebe na dependência do aluno
pela orientação do professor faz parte do jogo do poder na sala de aula e, na
maioria das vezes, é alimentado pelo próprio professor, quando exige que a
tarefa seja rigorosamente cumprida conforme determinação. Aproveitando as
afirmativas do Prof. Serpa (2002) “ a Liturgia da sala de aula precisa ser
quebrada, estamos muito ajustados à ordem social.” (Informação verbal).
O Ensino na maioria das vezes tem sido
autoritário onde o professor determina o que o aluno deve aprender e como deve
responder nas avaliações sendo mero reprodutor de idéias alheias. Precisa-se
preparar o aluno para o exercício da cidadania e realizar opções conscientes na
vida. No ensino a Distância o professor precisa perceber a potencialidades
desta modalidade de ensino sem fazer paralelos com a ensino presencial.
O que percebe-se é o grau de dependência
dos alunos, em virtude do modelo que tem recebido no lar, no meio social de sua
convivência e chegando até as Instituições de Ensino onde são dadas poucas
oportunidades de decidir, tornando o indivíduo dependente e com características
marcantes de meros reprodutores, e no ensino a distância isso precisa ser
repensado e imediatamente modificado.
A terceira questão envolve as diferentes
situações escolares e as formas básicas de aprendizagem autônoma que, por sua
vez, para serem caracterizadas, exigem que os alunos adquiram a capacidade de:
· estabelecer
contatos, por si mesmo, com fatos e idéias, analisando-as;
· ter
capacidade de compreender fenômenos e textos e de usá-los espontaneamente;
· planejar,
por iniciativa própria, ações e buscar soluções para o problema;
· desenvolver
atividades que possibilitem manejar as informações mentalmente, de forma independente.
Na aprendizagem autônoma, pode-se
reconhecer três componentes que desempenham importante papel em todo o
processo: O Componente do saber, o do saber fazer e o do querer.
3. COMPONENTES PARA APRENDIZAGEM AUTÔNOMA
Os componentes para a aprendizagem
autônoma são o saber, o saber fazer e o querer.
3.1.Componentes do Saber
Tanto o professor quanto o aluno possuem
um duplo problema: o de entender o seu próprio conhecimento construído enquanto
professor e aluno ao longo de sua vida, devendo dimensionar com clareza a forma
de se concretizar uma melhor aprendizagem nas diversas situações.
Tem sido demonstrado que as pessoas
pouco conhecem a si mesmo. E esse conhecimento pode direcionar para diversos
graus de profundidade, variando de indivíduo para indivíduo dependendo das
oportunidades para realizá-las.
Não se trata de um saber teórico
aprendido, e sim em um saber relativo a si mesmo, saber sobre o seu próprio
processo de aprendizagem, com suas facilidades e dificuldades, pois o
aprendizado não ocorre pela razão e sim por excitações e afetações.
O “saber” envolve conhecimentos
necessários à execução de uma prática. Entretanto, para poder ser capaz de
executá-la, é preciso “saber fazer” . Portanto, fica claro que, ao
conhecimento, alia-se a habilidade do indivíduo.
3.2.Componentes do saber fazer
Partindo do pressuposto de que todo
conhecimento sobre o processo de aprendizagem está naturalmente à disposição de
uma aplicação prática, o saber sobre o seu processo de aprendizagem, deve ser
convertido em um saber fazer.
No dia-a-dia da prática docente a
avaliação de aprendizagem é geralmente realizada pelo professor, tomando como
referência apenas o conteúdo desenvolvido, enquanto na aprendizagem autônoma, o
aluno não só avalia o seu desempenho em termos acadêmicos, como também avalia o
processo desenvolvido na sua aprendizagem, conforme a sua auto-orientação.
Para que o Ensino possa criar um clima
desafiador, podemos citar três condições básicas:
· autenticidade,
sinceridade e coerência nas relações professor/aluno;
· aceitação
do outro, o “saber ouvir”, respeitando o outro como ele é, com suas
potencialidades e limitações. O professor não deve ficar na relação do “sabe
tudo” e o aluno na posição de “tábua rasa”. Pelo contrário, deve haver o
respeito das individualidades e potencialidades que cada um possua;
· empatia,
compreender o outro e seus sentimentos, sem, com isso, envolver-se neles, pois
acreditamos que só existe aprendizagem com afetividade.
Na Educação a Distância esse papel é
desempenhado pelo Tutor que deve entender que a aprendizagem do aluno não é
simplesmente transmissão de conhecimento. É , sobretudo, um processo
participativo, onde o aluno é sujeito do seu próprio conhecimento. Sua
participação, portanto, deve ser ativa e, por isso mesmo, estimulada.
Contudo o aluno deve ser conscientizado
de que se trata de um processo de construção e reconstrução, pois as
modificações deverão ser efetuadas a partir da sua prática que sempre está a
exigir o saber fazer.
3.3.Componente do Querer
O desejo, a vontade de aplicar algo é de
fundamental importância para que se obtenha sucesso. Esse componente diz
respeito à questão do aluno estar convencido da utilidade e vantagens dos
procedimentos de aprendizagem autônoma e querer aplicá-los.
O Professor ou Tutor no EaD é gestor do
processo didático sendo o grande responsável pela disposição do aluno querer
desenvolver sua aprendizagem autônoma.
Devemos ter a nítida certeza de que o
desafio do aluno e do professor ao conduzirem o ensino para o aprender a
aprender não irá funcionar de forma consciente como uma vara de condão, ou com
poderes místicos. O que precisa ser direcionado é a ação pela descoberta tanto
do professor como dos alunos, respeitando as especificidades das modalidades de
ensino a distância ou presencial.
Não basta ao aluno apenas saber da existência do aprender a aprender e da sua
proposta pedagógica, o que levanta uma falsa idéia sobre a aprendizagem ser
considerada um processo único, quando na realidade, em cada um, pode ser
identificado muitos sub-processos, que no dizer de Galeffi é a polilógica, um
educar pela diferença.
É tarefa primordial do educador buscar a
unidade entre o saber, o saber fazer e o querer, ou seja, entre o pedagógico, o
técnico, o psicossocial e o político. Essa unidade, tão necessária ao novo “
fazer pedagógico” contextualizado, sem dúvida contribuirá para que o ensino
seja um processo construtivo, agradável, desafiador, estimulante e que tenhamos
sempre uma atitude aprendente e investigativa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aprendizagem autônoma facilita e
engrandece o processo de aprendizagem, pois só aprendemos o que desejamos; o
que é imposto memorizamos e posteriormente o desprezamos, e no Ensino a
distância é condição essencial para que essa modalidade possa progredir.
Na aprendizagem autônoma, os erros são
contribuições preciosas para agregarem novos conhecimentos e, através de
descobertas, os alunos identificarem os seus erros sendo conduzidos de forma
prazerosa aos acertos e ao crescimento de novas aprendizagens.
Esse poderia ser um caminho para
melhoria do ensino brasileiro. Trabalhar a autonomia do ato de aprender
independente de modalidade de ensino, proporcionar na verdade uma formação de
indivíduos autônomo, crítico e criativo. Um cidadão que não pense de forma
fragmentada, mas de forma global e sistematizada, só assim seremos sujeitos de
nossa própria aprendizagem.
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Capturado em 07/04/04.